O cheiro das nossas memórias...

Trás consigo a saudade, de subir aquela rua a pé nuns bons 15 minutos. De tocar à campainha 2 ou 3 vezes (era um código que tínhamos, mais tarde descobri que quase todos o tinham) e abrir a porta.
Espreitar no começo do lance de escadas e ouvir as tuas palavras lá de cima "quem é?"

Sou eu avó!
E sorriamos a duas!

Entrava e dizias, queres lanchar?
A avó comprou-te um bolinho ou o pão está fresquinho!
Queres beber o leite com chocolate na tua chávena, a avó faz!

Mas não foi sempre assim ( foi ainda melhor!!)...quando era mais pequena e ficava na tua casa podia brincar e fazer tudo o que quisesse...casinhas por baixo da mesa com aqueles paninhos que me arranjavas, massinhas, água e farinha para fazer os comerzinhos, regar e plantar rabanetes na varanda.
Deitar-me tarde e ver televisão!
Pintar-me, usar as tuas roupas, malas e dar cabo dos teus sapatos de salto alto!
Jogarmos ao jogo da Glória e ao dominó!


Domingo era sagrado, mas porque era dia do cozido à portuguesa na tua casa!
E claro sem esquecer os teus pudins que eram os melhores do Mundo!


Levavas-me nas excursões e fazias-me acordar cedo para ir contigo à praça com a promessa de que passávamos pela padaria da Dona Paula para me comprares uma grande bola de berlin!
E com sorte nesse dia ainda ganhava uma sombrinha de chocolate!

Quando voltasse a casa fazias o meu prato favorito bife com batatas fritas e ovo!
Eu também adorava a tua carne assada!

Se não fosse a tua casa nesse dia, falava contigo ao telefone...tinha dias em que falávamos 2 vezes!

Tenho saudades dos piqueniques  na fonte da Telha!


Quando levava algo da tua casa para a minha dentro de um saco, dizia pra minha Mãe:
- Mãe o saco cheira à casa da avó! (não sei se ela entendia o que queria dizer aquilo)
Todas as casas têm o seu cheiro e as coisas que vivem nelas também ficam com esse cheiro!
Se trouxermos algo desse local para a nossa casa e fecharmos num sítio, o cheiro pode manter-se durante anos!
Sim parece muito o livro o Perfume, mas eu era pequenina e esse livro não tinha sido ainda escrito.


A primeira vez que foste para o hospital eu era mais nova e tive medo mas no fundo sabia que ias safar-te! Estávamos lá todos, o avô também e tu ias recuperar...

Da segunda vez já estava no inicio da chamada idade adulta, recordo-me que nem eu nem a minha irmã te queríamos ir lá ver nesse dia!
A mãe entrou no nosso quarto, vinda de uma visita e nós perguntamos Então a avó?
Não passa de hoje, foi assim que os médicos disseram...
Sempre pensei que os médicos tinham formas muito fofinhas de dar más noticias (se é que existe uma boa maneira de as dar)!
Lembro-me de olhar para a minha irmã, ligar para o meu melhor amigo e irmos ao hospital fora do horário do expediente.
Eu detestava aquele hospital, o meu avô já tinha morrido lá e estava na iminência de perder ali a minha avó também...
A minha avó estava toda cheia de tubos, lembro-me de me agarrar na mão e tentar fazer com que eu os tirasse.
Eu disse Não e retirei a mão. Tens que ficar boa e ela virou-me a cara.
Se fechar os olhos consigo imaginar toda aquela cena como se fosse um filme.
E choro muito nessa parte, afinal de contas a última imagem devia ser algo bom, amoroso, mas a minha avó era teimosa e ficou zangada comigo! Ela queria ir para casa.

Saí daquela visita com a ideia que ela ia safar-se. Mas meia hora, mais coisa menos coisa recebo um telefonema da minha mãe "ligaram do hospital, a dizer que a avó morreu um pouco depois de vocês terem saído".

Senti uma dor muito grande...chorei e chorei muito.
Chorei até a barriga doer de tanto chorar...senti-me órfã.
Senti que não era justo, senti aquilo tudo que todos sentimos quando perdemos alguém...mas que a minha dor era muito maior...era uma dor se fim...
Nunca vou entender...se ela estava à nossa espera para se despedir.

Enterrar a minha avó foi doloroso, tanto como o meu avô (lembro-me de não sair de perto do caixão e de chorar a tentar agarrar-lhe a mão gelada).
Ainda assim sempre que alguém se afastava eu ia lá e dizia pra minha avó, vozinha acorda vá lá por favor acorda...

Fiquei com muitos objectos da minha avó, um deles o seu avental e um lencinho que ela costumava colocar na cabeça em dias de vento.
Guardei-os num saco muito bem atado. Em dias de grande saudade desatava o saco e ficava a cheirar as peças. E sentia um estranho conforto.

Durante meses liguei para o número de casa dos meus avós só para ouvir o número chamar.
Durante anos passei pela rua onde os meus avós tinham morado e fiquei sentada a olhar para a varanda no vão da escada em frente a chorar.

Hoje não existe um único dia em que não me recorde o quanto eu tive uma infância feliz quando eles eram vivos!
E choro muito...muito...

                            Hoje a minha avó faria anos e faz talvez num lugar qualquer.
                     
                                                                   Adoro-te avó 


                                

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