Existem poucos artistas capazes de me fazer mergulhar, durante dias, no esoterismo, na teologia e na espiritualidade. O quarto álbum da ROSALÍA, “LUX”, trouxe um destaque imediato com o single “Berghain”: o videoclipe tem uma produção cinematográfica incrível com um enredo invulgar que esconde camadas de significado, a voz é imaculada… e aquela orquestra? Simplesmente soberbo! Na era da inteligência artificial, é incrível ver como uma artista ainda nos consegue surpreender com tanta humanidade. Rosalía não é “só” uma cantora pop; fez mais do que isso e fê-lo com mestria.
ROSALÍA - Berghain (Official Video) feat. Björk & Yves Tumor
Começando pelo título da música: Berghain é um termo alemão formado por Berg (= montanha) e Hain (= bosque), apresentando o conceito de ‘bosque na montanha’ que está presente no vídeo.
A canção “Berghain”, com pequenos traços de barroco meio dramático, é inspirada em Hildegarda (Hildegarda de Bingen foi uma abadessa beneditina alemã do séc. XII; mística cristã cujas visões foram aprovadas pela Igreja; compositora do “drama sagrado” Ordo Virtutum, onde as Virtudes cantam e o Demónio apenas fala). Tal como ecoa Yves Tumor no mantra falado que encerra a faixa, uma frase que originalmente pertence a Mike Tyson (simbolicamente a "besta", tudo o que é violento). Assim, a artista tenta reinterpretar o Ordo Virtutum para a vida moderna.
Björk surge figurada como uma ave, mas não uma ave qualquer: um pisco, associado a mensagens espirituais e compreendido como porta-voz do destino (que entrega a lição sobre “intervenção divina”). Enquanto Rosalía interpreta uma Branca de Neve moderna, cansada das rotinas e das vezes em que o seu coração se quebra. Também aparece um cervo: animal que, em muitas tradições, é um símbolo de renascimento (nos celtas, Cernunnos; no cristianismo, São Huberto/São Eustáquio). Em várias adaptações do conto original, o coração de um cervo substitui o da Branca de Neve como prova do seu homicídio; aqui, a jóia em forma de coração assume esse sacrifício e, no fim, as batidas que nos cortam a respiração, com imagens de um cervo em sofrimento… dão lugar ao voo de uma pomba que representa a ascensão e transmutação em luz.
Neste primeiro ato, Rosalía renasce, como se percebe nas músicas seguintes.
Claro que tenho outra leitura, mais pessoal e simbolicamente alquímica. A história segue um percurso simbólico de transformação interior: começa no nigredo, a fase da ferida, do peso e da confusão; transita para o calcinatio onde tudo começa a dissolver-se (representado pelo açúcar que derrete), chega ao albedo (protagonizado pelo branco na Branca de Neve e na pomba) e termina no rubedo (ligado ao coração da jóia). Este coração de ouro danificado, quando levado à ourivesaria, continua “sem cura” no mundo; há quase uma parte eucarística, uma jura em alemão, uma vontade de renunciar a própria vida para fundir-se com Ele [“o sangue d'Ele é o meu”] como pacto de união; as batidas intensas da pulsação como fornalha que queimam o sacrifício e convertem-no na transmutação e ascensão (essa combustão simbólica sobre libertação culmina no momento da pomba). E há um pouco de arte renascentista: a referência visual à “Dama com Arminho”, de Leonardo da Vinci: um símbolo de pureza moral e moderação.
Rosalía é então a voz de muitas mulheres, porque na nossa vida existem feridas que nos vão deixando desanimadas e quebradas; mas num certo momento, aparece sempre uma visão, por intuição ou, às vezes, por um sinal. A artista afirma ter sido profundamente influenciada por Vimala, que deixou a vida de célebre cortesã para ser monja-poeta budista, como relatado na Therīgāthā; essa figura inspira Rosalía a encarnar a passagem do desejo alheio para a liberdade interior, onde o desapego transforma o corpo, outrora ‘vitrine’, num templo. O corpo deixa de ser "a casa da mãe Joana", deixa de ser essa vitrine mundana moldada pelos banais “devias ser assim ou assado”, “se fizesses isto eras mais bonita e todos gostavam mais de ti” para voltar a ser um templo, um altar para o amor-próprio. No final, essa visão ou intervenção divina cura-nos.
É este o legado que Rosalía, como profeta, nos deixa neste álbum: o convite ao som interior.

Comments
Desabafe o que lhe vai na Alma!