Os adultos desaprenderam a estar em espaços públicos e, sem perceberem, ensinam o mesmo aos miúdos.
Fui ver os Minions ao cinema com três gerações da minha família; o filme ainda nem tinha começado e eu já questionava todas as escolhas que me tinham levado até ali.
A Experiência
O problema dos filmes para crianças não são as crianças.
Ao meu lado, uma senhora achou boa ideia ver TikToks com o som ligado.
Por mim, tudo bem. A pessoa pode querer aproveitar aqueles minutos para ver cães a dançar, mulheres a arrumar frigoríficos ou alguém a explicar como ficar rica em sete dias.
Minha senhora, existem fones.
A sala já estava escura e a luz do telemóvel continuava ao meu lado; foi a sua própria criança que a chamou a atenção.
E o que respondeu a mãe?
— É trabalho.
Sim, senhora. Também já usei essa desculpa, portanto não julgo totalmente.
Mas era trabalho, era trabalho!
Passados uns segundos, o som foi desligado. Ok, pensei eu, é AGORA! Atenção máxima!
Mas a luz não se desligou...
E eu pensei:
"Querem ver que vou passar o filme inteiro assim?"
Respirei fundo.
"Calma, Sara. Estás muito sensível. É a perimenopausa. Não impliques com tudo. "Coitadas das pessoas, estás insuportável", dizia a minha voz interior, sempre uma simpatia!
A luz apagou-se. E aí pensei: "Ok, bora lá!" Mas não... que comecem os pacotes!
Sacos a abrir, embalagens a mexer, vozes a perguntar:
— Queres isto? — Queres aquilo? E a pobre criança a tentar ver o filme como eu!
Eu sei que o som do cinema é alto. Eu sei que estamos a ver Minions, não Bergman.
Mas há dias em que o meu cérebro já tem dificuldade suficiente em acompanhar uma conversa, quanto mais aquele estardalhaço todo!
Luzes, vozes, pessoas a entrar e a sair, pacotes, crianças, adultos e bananas.
A certo momento penso que deixei de perceber se estava no cinema!
Se era um teste neurológico ou tinha ido ver o Disney Channel na casa da senhora ao lado!
Chegou o intervalo.
Comecei a falar com o meu filho mais velho e com a minha irmã sobre o saber estar no cinema e sobre o facto de aquilo não ser a sala lá de casa.
Foi então que olhei para o palco.
Havia miúdos a correr, aos gritos, a subir e a descer, a transformar o intervalo numa espécie de Feira Popular em miniatura.
Atenção, as crianças podem falar, perguntar, rir alto, ficar irrequietas. Isso é normal, opá, mas fazer daquilo uma praça já me parece muito estranho!
E pensei:
Pronto.
Cheguei oficialmente ao grupo dos Velhos do Restelo.
E disse aquela frase que todos os Velhos do Restelo dizem: "No meu tempo não era assim."
Eu sei que todas as gerações dizem isto antes de começarem a reclamar das dores nas costas e do volume da televisão, mas eu já estou no caminho de reclamar de tudo, com tudo e com todos!
Habituámo-nos tanto ao streaming que o maior problema, para mim, é quando nós, os adultos, tratamos os locais públicos como extensão da nossa própria casa.
E depois fingimos que são os miúdos que não sabem estar.
Mas depois olhei para a minha família.
A minha mãe, tinha começado de tarde a resmungar porque não queria ver um filme para crianças. Minutos depois, já se ria das parvoíces.
A minha irmã, que detesta cinema, ficou de birra porque queria ver Toy Story. Era "do tempo dela".
O meu pai dormia na cadeira. Plenamente entregue à experiência cinematográfica.
A Vivi estava longe de mim, entre as primas, feliz.
O João tinha ficado com a minha mãe ao lado! Temos de aproveitar o tempo que nos resta com os nossos velhotes!
As miúdas portaram-se muito bem. Ainda bem.
Caso contrário, esta tradição familiar teria morrido mesmo ali, antes de nascer.
O FILME
Ah, sobre o filme, felizmente, dá muito mais aos adultos do que eu esperava.
Uma homenagem divertida a Hollywood, à história do cinema, aos monstros e à forma como a indústria transforma tudo em espetáculo.
Conseguiram fazer a proeza de colocar um mini Cthulhu amoroso e adorável! Também pareceu uma referência a Cthugha e Shub-Niggurath! Mas posso estar enganada...
Há referências suficientes para entreter os adultos sem estragar o filme às crianças. E não vou contá-las! Quer dizer, já disse uma, mas enfim!
Lovecraft é Lovecraft.
Parte da graça é precisamente descobri-las.
Também há uma piada deliciosa sobre um extraterrestre conseguir respeitar melhor os direitos das mulheres do que muitos homens humanos.
(Ups, e já disse duas!)
Aposto que algures já há alguém ofendido com a politização dos Minions.
Imagino perfeitamente:
"Agora até os bonecos amarelos têm agenda."
Calma.
São Minions. E se os católicos mais exaltados ainda não se revoltaram com tanta alusão ao grande culto a Cthulhu, é porque estavam distraídos!
Aparece um monstro laranja. Gigante. Cheio de olhos.
Só a nossa fila se riu. Calma, não foi porque somos extremamente inteligentes e aquilo nos soou a Trump!
Mas por que o Monstro tinha um nome, Irene.
O resto da sala deve ter pensado que éramos uma família ligeiramente avariada. Não estariam totalmente errados.
A partir desse momento, qualquer tentativa de crítica cinematográfica séria ficou comprometida.
Como é que se leva a sério um monstro chamado Irene quando a avó Irene está sentada na mesma sala, depois de ter resmungado porque ia ver um filme para crianças?
Talvez o cinema já não seja o lugar como eu o recordo!
Mas ver a minha mãe rir, o meu pai dormitar e os miúdos felizes na mesma sala ainda vale o bilhete.
Talvez voltemos a fazer isto uma vez por mês, talvez fiquemos só pelo streaming, porque esta gente toda no cinema sai caro! :(


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