Se ainda não sabem bem o que é a manosfera, o redpill, ou debates de 20 X contra 1 Y que estão a infestar o YouTube e o TikTok é melhor inteirarem-se.
Porque os vossos filhos já sabem. O algoritmo tratou disso.
Fui ver um desses podcasts. Tomei notas. Fiz um cházinho. O chá arrefeceu. O podcast continuou e fiquei presa naquilo dois dias, porque a minha vida não é só isto.
Apresento-vos o Numeiro alter ego do João Barbosa que nasceu em 1997 e descobriu opiniões de 1952. Vou chamá-lo de João.
O João começa com a máxima de que "vocês escolhem com quem vão para a cama e nós escolhemos com quem casar."
Acho que conseguimos fazer as duas coisas. Mas obrigada pelo esclarecimento.
Segue-se: "Uma mulher que tem tatuagens já dormiu com mais homens."
Onde vai buscar estas estatísticas? Na internet, diz o Numeiro com sarcasmo.
Na Pordata ou no Reddit? Pergunto eu, mulher com tatuagens!
Depois vem o exemplo da estrada. Longo, extremamente dramático.
A conclusão lógica é que a mulher é mais segura em casa porque não é assediada nem morre atropelada. É basicamente o argumento do "se não saísse à rua, não te acontecia nada".
A lógica da batata, portanto!
Para o Numeiro, a discoteca é um lugar de perdição, mas só para as mulheres!
Especialmente quem já tem cara-metade!
As mulheres vão lá exclusivamente para engatar homens e depois admiram-se do que lhes acontece. Os homens que lá estão são o quê exactamente? Mobília? Vítimas colaterais? O raciocínio do João não chegou a esse ponto.
Eu não tenho uma casa de milhões no Dubai, mas tive uma discoteca.
Considero-me com legitimidade para falar do assunto!
Mulheres deviam ficar em casa. Para ter filhos, tratar dos filhos, tratar da casa e tratar do marido. O marido tem 5 anos, ao que parece.
Ninguém me avisou que casar era adoptar mais um, se é que percebem o meu sarcasmo!
Aparece um Manel que diz que mulher ficar em casa como "objecto inactivo não é bom."
Calma, Manel. O que querias dizer é que a mulher deve poder escolher.
Ainda bem que exististe neste podcast.
Entretanto, o Numeiro diz que não se deve impedir a mulher de trabalhar mas também não se deve promover. Ele pensa que está num supermercado? A fazer gestão de prateleiras?
E chegamos ao tema das tatuagens. "Todas as putas têm tatuagens." Podia explicar a história ancestral da tatuagem, a forma de arte, o estatuto cultural. Mas não tenho tempo para isso; a cultura geral nunca fez mal a ninguém!
Os jogadores de futebol têm tatuagens porque são "parolos que ganham dinheiro".
Este Numeiro tem carreira no stand-up, juro-vos — lá na Parvosfera dele.
Cerejinha no bolo: "O feminismo é uma propaganda do Estado para duplicar a base tributária." A sério. Disse isto. Com a boca. No microfone. E há pessoas a aplaudir nos comentários.
Os manos, portanto. Ah e manas, também estão lá, manas!
Uma das convidadas tenta dizer que devíamos educar os homens a não bater nas mulheres. O Numeiro responde que devemos ensinar os homens a serem masculinos e que um homem masculino de verdade faz artes marciais para controlar a raiva, eventualmente dentro da relação. Portanto: coitadinho do homem, tem tanta raiva, precisamos ensiná-lo a não usar os punhos. Fantástico raciocínio do João. 10/10.
E claro o "Grande final" a namorada não deve ter Instagram. Nem perfil aberto. Nem amigos homens. Só amigas. Mas também não deve sair à noite com as amigas. Resta-lhe o Lidl e os códigos de desconto, ao que parece.
Tenho alguma curiosidade: quando o João sai com a namorada, não vai levar os amigos? Amigos, amigos, negócios à parte. Ele sai com os amigos dele, ela sai com ele e, se se portar bem da parte da tarde, vai comer um gelado, (pago por ele) com as amigas.
Tenho 47 anos, 3 filhos, sou casada com o mesmo tipo. Eu sei, é um tédio, mas ele é muito giro. Pobrezinho, mas bonito. Eu sou Blogueirinha. Na verdade, quando o João Barbosa nasceu, eu já andava a virar frangos na internet, já trabalhava, estava na faculdade, já tinha tido dois namorados e algumas curtes (epá, que escândalo).
Sim, João, consegue-se fazer as duas coisas, já vimos. Já organizava eventos, tinha tatuagens, tinha piercings, e tinha comunidades não uma, várias, com todo o tipo de pessoas. A minha vida não me trouxe riqueza monetária andei de avião pela primeira vez no ano passado, para teres uma ideia, mas deu-me uma riqueza em experiências que não cabe num podcast com mesa preta e luzes de néon de 24 horas!
Não estou a menosprezar o teu percurso rapaz. Estou só a contextualizar o meu!
Segundo o Numeiro, eu devia estar cancelada e sem filhos. Aqui estou. A escrever sobre o João.
A vida tem um sentido de humor excelente.
O que fica
Reparem no detalhe bonito: não é "eu prefiro relações tradicionais".
Isso era uma preferência pessoal.
Isto é outra coisa; é um controlo emocional embrulhado em masculinidade.
A versão masculina do "não é ciúme, é cuidado."
O meu marido pode preferir que eu fique em casa. Eu posso preferir trabalhar. Outra mulher pode querer ser CEO. Outra pode querer galinhas, pão caseiro e paz mental.
O problema começa quando uma escolha pessoal vira uma espécie de regra universal, porque todas nós já vimos onde isso nos levou durante a história das mulheres...
Como mãe, o que me preocupa nem é o João. É o algoritmo. E sim, já sei: "basta não lhes dar telemóvel, e mais brincadeira e natureza!"
Olhem, cada um cuida da sua vida. Da última vez que estivemos em natureza pura, o mais velho foi parar no hospital quase a morrer (porque era alérgico a árvores e a erva e... enfim!
Devemos equilibrar as coisas, nem 8 nem 80.
Ensinar a usar a internet, mas não só aos filhos; os pais não têm literacia digital alguma!
Porque há miúdos de 13, 14, 15 anos a ouvir o Numeiro como se fosse sabedoria ancestral gravada numa pedra sagrada, quando é maioritariamente insegurança, experiências que o traumatizaram, com microfone e patrocínios.
Resultado prático:
- rapazes confusos sobre o que é ser homem;
- raparigas a achar normal serem controladas.
- relações cada vez mais tóxicas;
- gente nova a romantizar dependência emocional.
E não, isto não é ódio aos homens. (não venham confundir femismo com feminismo, please)
Antes que apareça um guerreiro da internet com foto de carro e frase motivacional em inglês, o meu marido existe, está bem e nunca precisou de artes marciais para gerir os sentimentos. Também não somos os pais do Ruca. Andamos algures entre os pais da Bluey (agora mais cansados porque já tivemos 3) e um casal que pode parecer superliberal — vou arrepender-me desta palavra — ou melhor: damos muita liberdade, mas somos pais helicópteros!
Estamos a melhorar. Mentira. Eles cresceram e são quase adultos. O helicóptero foi à revisão.
A parte mais cansativa? Nós, pais, agora temos de explicar aos filhos que "não controlar ≠ não amar", que "mulher independente ≠ mulher má", e que masculinidade não devia parecer uma mistura de segurança privada com dono de quinta em 1890.
No meio disto tudo, só imagino as mães: a fazer jantar, a responder aos e-mails que o patrão enviou porque sim, a dobrar roupa, a tentar sobreviver à vida e ainda a desmontar podcasts redpill ao jantar. A parentalidade moderna é mesmo conteúdo premium.
Conta aqui em baixo, prometo que o chá está frio para toda a gente.
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Quero mesmo saber o que pensam.
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