Moonspell, Far From God: a Noite, os Lobos, Nietzsche e a capa de Eliran Kantor! | Profissão Mãe

7 de julho de 2026

 


Já ouvi o novo álbum dos Moonspell, para dizer a verdade, está no modo repeat, e a primeira coisa que preciso dizer é esta: não vou fazer uma crítica técnica.

Não sou musicóloga, nem percebo de produção sonora. (Aliás, até me irrita um pouco quando eu só quero ouvir música e vem um chato qualquer falar nisso).

Portanto, com toda a certeza não venho aqui dizer se a guitarra entrou aos três minutos com a afinação certa, se o baixo está mais à frente ou se a bateria devia ter levado mais qualquer coisa na mistura; isso deixo para quem sabe, tipo o Rui, que é músico e resumiu o disco assim:

"Está muito gótico, não sei se os metaleiros vão gostar."

Para quem não sabe, metaleira não sou, mas gótica assumida sim!

SOBRE MOONSPELL

Eu vi Moonspell aparecer quando Portugal ainda parecia demasiado pequeno, demasiado católico, demasiado encolhido para ter uma banda assim: sombria, literária, sensual, pagã, vampírica, lunar. Também sei que nunca deram a devida atenção e os devidos créditos que esta banda merece, mas isso daria outro post. Mas preciso deitar-me, que a miúda amanhã acorda cedo! Continuando.

A verdade é esta: eu nem gostava assim tanto de metal. Mas Moonspell era diferente.
Falava a minha língua. A língua da noite, dos poetas, dos incompreendidos, dos românticos.

Era poesia melódica para os meus ouvidos.

"Listen to them, the children of the night. What music they make!"

Drácula, de Bram Stoker.

Sobre as suas letras, tinham o locus horrendus, a paisagem terrível, o desejo pela sombra, a beleza do que assusta. E Fernando Ribeiro em palco era uma criatura, um sacerdote, um animal (o lobo), mas também o vocalista e figura saída de um romance do século XIX.

Qual é o meu álbum favorito, perguntam vocês?

É difícil escolher, mas tenho uma ordem: Irreligious, Wolfheart, Sin, Under the Moonspell e os outros... Acrescento ainda que achei brutal estes 2 projectos Opus Diabolicum - The Orchestral Live Show e From Down Bellow - Live 80 Meters Deep!

2 boas recordações de Moonspell.

Tenho 2 boas recordações: o Fernando Ribeiro ter aparecido no evento feito pela Carla e o Luís "Outubro Negro" no meu bar Culto Club em Cacilhas! Talvez 2004 ou 2005? (A perimenopausa e 3 filhos depois não perdoam)!
E jamais vou esquecer do concerto que deram no Beato a 12 de Julho de 1996! 

Mais sobre Moonspell 


SOBRE A MINHA VISÃO DO ESOTERISMO E OCULTISMO EM MOONSPELL

Durante anos, o universo dos Moonspell teve uma ligação evidente ao oculto a Crowley, Éliphas Lévi, LaVey, ao vampírico, ao licantropo, ao pagão, ao religioso profanado, ao simbólico.

Para uma banda nascida num Portugal profundamente marcado pelo catolicismo, mexer nesses símbolos era também um gesto de libertação, parece-me a mim!

Quando somos mais novos,, o ocultismo pode ser uma porta (aqui falo muito por mim, foi um assunto que me suscitou interesse desde nova e depois, continuo, quando fui livreira na FNAC na secção livros práticos vocês não imaginam a quantidade de livros que eu vendia e encomendava para pessoas do mundo da política, do entretenimento...) Uma porta para sair da moral herdada, para rejeitar a culpa, para dizer que não pertenço ao vosso mundinho, obediente e bem-comportado.
 Alinhado e sem questionar, o da carneirada!

Mas há uma coisa que se percebe com a idade: até o ocultismo pode virar um sistema fechado, como me pareceu ter dito, e bem, Fernando Ribeiro, numa das entrevistas que deu! Também pode ter dogmas, mestres, catecismos com uma roupagem diferente; também pode vender-nos a libertação enquanto cria outras prisões. Ou seja: troca-se uma igreja por outra, só que com umas velinhas pretas e uma roupa mais catita!

A FILOSOFIA

É aqui que entram os filósofos Feuerbach, Kant, Voltaire, Spinoza e, claro, Nietzsche, também o meu favorito! (citados por F.R)

Nietzsche entra não como "Deus morreu". Mas imagina a questão dos valores! (Sim, olá filosofia do 12º ano!) Recebemos ou herdamos os valores como se fossem verdades eternas: bem, mal, pecado, virtude, culpa, obediência. Quem criou estes valores? A quem servem? Estão a libertar-nos ou a domesticar-nos?

O que faz o ocultismo? Abre-nos a porta da noite. Os filósofos, obrigam-te a pensar sobre ela, então, em vez de usares esses símbolos de forma simples, transforma-os em pergunta.
Reparem, o vampiro pode não ser só um monstro. O lobo não é só uma fera. A noite não é só o mal. Deus não é só a resposta. 

Portanto, crescer não é trair a escuridão; é preciso muita maturidade para chegarmos a este ponto e o assumirmos. Pessoalmente, encontrei sempre um equilíbrio, e não é muito fácil! :)
Os caminhos são tentadores e sinuosos.

Far From God: um pacto quebrado com a própria sombra?

Há uma frase do álbum que me marcou profundamente, que me tocou nas entranhas: "I am not of this earth. And I am not of this time..." Podia ser uma descrição minha.

É neste lugar que os "esquisitos" se encontram e se reconhecem nesta irmandade de filhos da noite.

Há uma leitura deste álbum que me interessa particularmente: e se Far From God for a quebra de um pacto? Não literal, calma, respirem ou talvez seja, quem sabe.""Strange are the ways of the wolfhearted..."

Falo de um pacto artístico. Com a juventude, com a persona, com o vampiro, com a noite, com aquilo que o público espera que a banda seja.

Far From God soa-me claramente mais gótico. Há ecos de Irreligious, qualquer coisa de Sin e, em alguns momentos, uma memória longínqua de Under the Moonspell e quiçá Wolfheart.

Sei que se fala de Sisters of Mercy e Danzig como referências, sobretudo na produção. Mas não é isso que ouço primeiro. Eu ouço mais Fields of the Nephilim, Love Like Blood, um pouquinho de Paradise Lost. Há também uma sombra distante dos HIM.

Disse que não era expert.

A CAPA DO ÁLBUM: ARTE, O BEIJO E A LÂMINA

A capa de "Far From God", de Eliran Kantor, parecia só mais uma capa; durante 3 segundos foi o que pensei! Depois, quando observas de perto e eu tive de fazer zoom várias vezes, fiquei frustrada na mesma por não alcançar respostas que nem o artista, nem Fernando conseguem dar.
Claro que isso faz parte "da cena"!

O que eu vi primeiro: um beijo à janela, uma imagem quase pré-rafaelita na pose, na inclinação dos corpos, naquela mulher que parece uma musa, uma sombra, uma amante ou um fantasma?

Depois olhei mais de perto, e voilà: uma lâmina suspensa, há uma corda, uma janela (que não é uma janela, um buraco que separa dois mundos), há uma forma redonda em baixo que pode ser um cesto, há um beijo onde os rostos quase perdem o contorno. 

Os narizes estão juntos, sem uma fronteira nítida; aquela imagem não mostra apenas duas pessoas a beijarem-se. Mostra duas identidades a fundirem-se no momento antes do corte.
Profundamente perturbador, diria até um pouco grotesco, como Goya, mas belo na sua composição!
Falamos de amor? Será que o amor chega para impedir a lâmina? Ou pior: o amor é precisamente aquilo que nos leva até ela.

Voltando àquela "mulher "da capa, ela não precisa ter uma lâmina na mão; a lâmina parece ser parte do mundo dela.
E o vestido? O vestido parece feito em tecido, mas comporta-se como uma sombra viva.
Há qualquer coisa no ombro, uma forma escura, um bicho, uma dobra, algo que não consigo identificar! Será um demónio? 

E se aquilo em baixo for mesmo um cesto, então a imagem deixa de ser apenas "um beijo".
Passa a ser uma execução íntima. O romantismo no beijo. O horror no cesto.

E talvez seja isso que Kantor quis, deixar-nos com algo indecifrável!

LE GRAND FINAL 

Far From God não é só sobre estar longe de Deus. É sobre o afastamento de tudo o que dizemos ser sagrado: amor, fé, verdade, ligação, redenção.

Gastámos essas palavras até ao osso. Colamo-las a guerras, a moralismos, a algoritmos, a gente que se acha cheia de luz enquanto caminha alegremente para o abismo! Tenho visto muitos nos últimos tempos!

Existe algo que me fica e que partilho convosco: crescer não é abandonar os nossos fantasmas.
É sim, deixar de lhes obedecer. Longe de Deus, sim. Mas ainda perto da noite.
E, para alguns de nós, isso sempre será uma forma de fé!

Amor fati, seres de noite!


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