Joana Marques: culpada ou indecente? Os Anjos e os limites do humor.
Primeiro destaque deste documentário: a banda sonora é muito boa. Agora já posso falar do resto!
Agora um bocadinho de história e contexto por favor!
Vocês lembram-se do que eram os bobos da corte? Presumo que tenham estudado o grande Gil Vicente nas aulas de Português? É que a sátira não nasceu ontem, nem foi inventada por a Joana Marques.Há séculos que o humor serve para expor o ridículo, furar egos demasiado cheios e dizer aquilo que muitos pensam, mas não têm coragem de dizer. Os bobos da corte podiam usar o riso para chegar onde outros não chegavam. Gil Vicente pôs a sociedade inteira em palco e não poupou praticamente ninguém.
Joana Marques é uma espécie de herdeira moderna dessa tradição.
Sobre a Joana Marques:
Eu gosto dela. Talvez porque temos quase a mesma altura mentira, ela ainda tem uns centímetros a mais do que eu. Somos sarcásticas e, vá, talvez um bocadinho cruas ou abrutalhadas a falar.
Segundo destaque, achei hilariante a dinâmica com o marido Daniel Leitão. Ela, aparentemente descontraída, com energia de “avançamos e logo se vê”; ele, o tipo pensador, já a antecipar catorze consequências possíveis.
Também adorei descobrir que ela não atende chamadas. Eu também não. Detesto.
Se é importante, manda mensagem. Se é urgente, manda duas.
Aceito chamadas de voz, obrigada!
O DOCUMENTÁRIO:
Quanto ao caso dos Anjos, a Joana fez aquilo que faz com tantas outras figuras públicas: pegou numa situação pública e gozou. Não me parece que tenha existido um tratamento especial. Eles é que não tiveram jogo de cintura e decidiram transformar uma piada num processo em que pediam 1.118.500 euros.
Um milhão, cento e dezoito mil e quinhentos euros.
No documentário, Tânia Naranjo até lembra que, em Portugal, há indemnizações por morte na ordem dos 150 mil euros. Não existe uma tabela fixa para o valor de uma vida, evidentemente, mas a comparação mostra bem a dimensão do pedido.
Claro que se percebe, para tornar a coisa mais mediática e quiçá receber dinheiro, sem fazer a ponta do corno!
Usando esse valor como referência, os Anjos estavam a pedir o equivalente a cerca de sete indemnizações e meia por morte.
Sete vidas e meia por uma montagem no Instagram com as caras do júri do Ídolos.
Eu tenho várias questões: se o problema principal foram os erros técnicos na captação e transmissão, por que foi Joana Marques levada a tribunal por aquele valor? A sentença atribuiu esses erros à empresa responsável pela transmissão e considerou que a humorista reproduziu as imagens que tinham sido emitidas publicamente.
Porque não processaram essa empresa?
E por que não processaram todas as outras pessoas que gozaram com a actuação? A Internet inteira ouviu. A Internet inteira comentou. Não precisou da autorização de Joana Marques.
A mim, aquele pedido milionário deixou-me a sensação de que tentaram aproveitar-se de uma situação. Correu mal. A Joana foi absolvida e os Anjos acabaram a fazer publicidade a uma marca de água com gás, usando o próprio processo como piada.
Deve ser da azia.
Achei e continuo a achar Joana Marques, uma pessoa muito inteligente. O espectáculo Em Sede Própria é a prova disso: pegou num processo que lhe trouxe ansiedade, trabalho e despesas e transformou-o em matéria-prima.
Espero que o espetáculo, tenha pago as contas da advogada e ainda tenha sobrado para comprar umas águas com gás! Ahahahahaha para ajudar os rapazes!
Há uma certa justiça poética em transformar uma tentativa de silenciamento numa sala cheia de pessoas a rir. A Joana não se limitou a defender-se: recuperou o controlo da narrativa e fez dela trabalho.
Fiquei também a pensar na piada sobre a SIC e o seu director. Joana já não integra o Isto É Gozar com Quem Trabalha. Oficialmente, saiu porque era difícil conciliar a rádio, os vários dias de preparação do programa e a vida com os filhos.
Achei amoroso, aparecer um comentador da CMTV, daqueles programas em que várias pessoas se sentam a avaliar relações, separações, comportamentos e a vida alheia, sem sequer terem a desculpa de estar a construir uma peça humorística, a afirmar que Joana Marques pertence a uma “elite”.
Ouvir essa acusação de alguém que ganha dinheiro a comentar publicamente a vida dos outros é uma ironia tão perfeita que nem precisava de ser escrita pela Joana.
Afinal, ela pertence à elite e ele ao quê? Ao operariado da coscuvilhice televisiva?
Também fiquei a pensar se os Anjos processaram Joana por ser uma mulher. Não posso obviamente afirmar isso. Havia outras razões para a escolherem: foi ela quem publicou aquela montagem concreta, tinha enorme alcance e capacidade para responder judicialmente.
Mas posso perguntar se teriam exigido a um humorista homem que apagasse o vídeo, pedisse desculpa e fosse menos “cruel”?
O sarcasmo masculino é frequentemente apresentado como inteligência mordaz. Numa mulher transforma-se depressa em maldade, arrogância ou falta de empatia. Talvez o género não tenha originado o processo, mas pode ter pesado na vontade de a disciplinar e “colocar no seu lugar”.
E chegamos a Luana Piovani.
Acho que a Luana tem todo o direito de não gostar de Joana Marques. Sendo um alvo frequente, é compreensível que veja estas situações pelo lado de quem leva com a piada. Mas estar magoada não transforma automaticamente, quanto a mim, uma piada num acto de bullying.
Ser actriz e fazer teatro também não torna ninguém automaticamente especialista em sátira, tal como cantar durante décadas não transforma ninguém em especialista em liberdade de expressão.
É preciso distinguir duas afirmações:
“Esta piada magoou-me e acho-a péssima.”
“Esta piada não devia poder ser feita.”
A primeira é legítima. A segunda é perigosa.
Luana diz que Portugal precisa evoluir. Concordo. Mas evoluir para onde? Para um país em que todas as piadas têm de passar primeiro por um advogado e só podem ser publicadas depois da aprovação da pessoa visada?
Isso não é evolução. É um novo género de censura.
Depois veio a frase sobre os filhos, os netos e os fãs, que um dia sentiriam vergonha porque “a consciência vai vencer a maldade”.
Credo!
E, quando garantiu que Joana “vai pagar” perante a justiça de Deus, para mim deixou de discutir humor e passou diretamente para a ameaça metafísica.
A Justiça portuguesa absolveu Joana Marques? Não faz mal: recorre-se para o Supremo Tribunal Celestial.
É de uma modéstia encantadora alguém presumir que conhece a posição de Deus sobre uma montagem do Instagram. Deus transformado em cobrador das nossas ofensas pessoais.
Primeiro diz que Portugal precisa de evoluir. Depois invoca o castigo divino para uma humorista. Portanto, a evolução proposta é uma espécie de Inquisição com Wi-Fi?
Afinal, o que é o humor? Para que serve? Só pode existir quando a pessoa visada também se ri? Uma sátira precisa de autorização prévia?
O humor serve para fazer rir, claro. Mas também serve para expor contradições, desmontar vaidades, incomodar e tornar suportável aquilo que, sem ele, seria apenas absurdo.
Nem todas as piadas são boas. Nem todas são justas. Algumas são cruéis, preguiçosas ou simplesmente não têm graça nenhuma.
E existem limites: ameaças, perseguição, incitamento ao ódio, invasão da vida privada ou mentiras apresentadas como factos. Também existem escolhas éticas e espaço para discutir se uma piada bateu para baixo ou foi desproporcional.
Mas sentir-se ofendido não transforma automaticamente uma piada em bullying. E uma piada de mau gosto não se transforma automaticamente num acto ilegal.
Não sei se Joana nunca teve medo. Provavelmente teve. Um pedido de mais de um milhão de euros assusta qualquer pessoa. A coragem não é ausência de medo; é não deixar que o medo decida.
Ela percebeu que apagar o vídeo ou aceitar determinadas condições colocaria em causa muito mais do que aquela publicação. Estaria a admitir que basta ter dinheiro, advogados e a susceptibilidade ferida para controlar aquilo que os outros podem dizer.
Não estava apenas em causa uma piada sobre os Anjos. Estava em causa saber se o humor precisa da autorização da pessoa visada.
E essa resposta só pode ser não.
Uma decisão diferente poderia criar um exemplo perigosíssimo: humoristas, jornalistas, artistas e pessoas comuns começariam a pensar primeiro no advogado e só depois naquilo que querem dizer. A própria sentença alertou para o risco da autocensura preventiva.
Joana não estava apenas a defender-se. Estava a impedir que a ofensa pessoal se transformasse numa forma privada de censura.
Não a achei culpada nem indecente. Acho-a inteligente, sarcástica, por vezes bruta, mas muito consciente do que está em jogo e do que é preciso expor!
Viram o documentário? Onde termina a sátira e começa o bullying? E uma piada precisa ter graça para a pessoa visada ou basta ter graça para quem a ouve?
Profissão Mãe
a virar frangos na net desde 94.
Ainda estou aqui.
Apesar do algoritmo.
A escrever sobre tudo o que gosto maternidade, cultura, livros, música, filmes, história, arte, internet e tudo aquilo que me incomoda o suficiente para não ficar calada.
Sou uma chata, não é? Temos pena! (Não temos nada!)


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