YANUNI: a Amazônia não precisa ser romantizada. Precisa ser protegida.
Estou a ver YANUNI, o documentário sobre Juma Xipaia, mulher indígena, mãe, activista e uma das principais vozes na defesa dos povos e territórios da Amazônia.
O filme é também produzido por Leonardo DiCaprio. E sim, tenho várias reservas em relação a ele e às suas contradições. Mas é precisamente o seu nome, o dinheiro e a influência que dão ao documentário uma visibilidade que provavelmente não teria sem ele. Ao mesmo tempo, esta causa também lhe dá capital moral e beneficia a sua imagem. Uma mão lava a outra.
Isso não invalida o documentário. Também não transforma DiCaprio num santo ambientalista.
Sobretudo, não podemos deixar que o homem famoso se torne mais importante do que a mulher cuja vida, família e território estão verdadeiramente em risco. Juma Xipaia não é apenas a protagonista: participou na produção e nas decisões sobre a forma como a sua história e a do seu povo seriam contadas.
YANUNI mostra a luta contra o garimpo ilegal, a apropriação de terras, os grandes interesses económicos e a violência dirigida a quem tenta proteger o território. Juma já sobreviveu a várias tentativas de assassinato. Enquanto isso, o resto do mundo continua a beneficiar-se da floresta e a falar da Amazônia como se fosse um cenário longínquo.
Esta não devia ser apenas uma causa brasileira.
A Amazônia é um dos grandes sistemas vitais do planeta. Influencia o clima, guarda uma biodiversidade imensa e sustenta povos com culturas, línguas e conhecimentos que não podem ser recriados depois de desaparecerem.
Mas também não nos cabe, a nós, chegar de fora com a velha arrogância de quem se imagina o salvador. A protecção da Amazônia tem de ser feita com o Brasil e, sobretudo, com os povos que vivem nos territórios e os defendem há gerações.
Se o mundo inteiro beneficia desta floresta preservada, então o mundo também deve ajudar a suportar o custo da sua preservação: financiar a fiscalização, a monitorização, a protecção dos defensores ambientais e alternativas económicas que não dependam de destruir a floresta. Proteger a Amazônia tem de valer mais do que arrancar ouro, madeira e outros recursos do seu interior.
Estes povos não são os figurantes exóticos numa floresta que cobiçamos. São pessoas. Têm direitos.
E enquanto continuarmos a tratar a Amazônia como um armazém de matérias-primas, nenhum documentário, por mais necessário que seja, chegará para protegê-la.
E enquanto continuarmos a tratar a Amazônia como um armazém de matérias-primas, nenhum documentário, por mais necessário que seja, chegará para protegê-la.
Também fiquei com vontade de saber mais sobre aquilo que raramente nos mostram: como é viver num território indígena em 2026? O que mudou? O que está a desaparecer? Como convivem a tecnologia e os conhecimentos ancestrais? Como é ser mulher, mãe e dirigente indígena hoje? Que preconceitos continuam a existir? E, principalmente, como podemos ajudar sem paternalismo, sem apropriação e sem falar por quem sabe falar por si?
Entretanto, vejam YANUNI. Está disponível gratuitamente no YouTube.
Profissão Mãe
a virar frangos na net desde 94.
Ainda estou aqui.
Apesar do algoritmo.
A escrever sobre tudo o que gosto maternidade, cultura, livros, música, filmes, história, arte, internet e tudo aquilo que me incomoda o suficiente para não ficar calada.
Sou uma chata, não é? Temos pena! (Não temos nada!)


Comments
Desabafe o que lhe vai na Alma!